Na reta final da maior festa popular do Nordeste, a história por trás das comidas típicas, da música, da fogueira e das quadrilhas revela como os saberes indígenas e africanos transformaram uma tradição europeia em uma das mais autênticas expressões da cultura brasileira
Na reta final de O Maior São João do Mundo, quando os arraiás seguem cheios e o forró continua embalando milhares de pessoas, vale lembrar que a maior festa popular do Nordeste também é um encontro de heranças culturais. Muito do que hoje identifica o São João brasileiro foi moldado pelas contribuições dos povos indígenas e africanos, que transformaram uma celebração de origem europeia em uma manifestação genuinamente brasileira.
Essa herança é percebida na mesa e nos terreiros, onde os pratos se enchem de comidas típicas carregadas de afeto, as chamas da fogueira crepitam, as quadrilhas dançam ao comando dos marcadores, enquanto o arrasta-pé toma conta dos arraiás ao som da zabumba, do triângulo e da sanfona, embalando ritmos como forró, xote, xaxado e baião.
Gastronomia
No Brasil, a lógica da colheita se adaptou ao milho, cereal que há séculos ocupa lugar central na alimentação dos povos indígenas. Segundo a tradição popular, o plantio acontece em 19 de março, Dia de São José. A crença diz que a chuva nessa data anuncia uma boa colheita três meses depois, justamente na semana de São João.
No cultivo e no aproveitamento do milho, os conhecimentos trazidos pelos povos africanos foram fundamentais.
Acostumados ao manejo, à moagem e à fermentação de grãos como milheto e sorgo, eles aplicaram técnicas que contribuíram para a construção da culinária que hoje caracteriza os festejos juninos.

Os saberes culinários africanos também foram essenciais para a adaptação do cuscuz no Brasil. Originalmente preparado com trigo no Norte da África, o prato passou a ser feito com milho e ganhou novas formas de preparo nas cozinhas brasileiras, tornando-se um dos maiores símbolos da gastronomia nordestina e atravessando gerações como um alimento afetivo.
A culinária junina não se resume ao milho. Da alimentação indígena também herdamos ingredientes como macaxeira, batata-doce e amendoim. A eles somam-se o açúcar, introduzido pelos portugueses, e o leite de coco, cujo protagonismo na cozinha brasileira foi consolidado pelos saberes culinários africanos.
Do encontro entre o coco e o milho nasceram preparações que hoje fazem parte da memória afetiva dos nordestinos, como canjica, pamonha, bolo de milho, bolo de fubá e mungunzá — palavra originária do quimbundo mu’ngunza.
Fogueira
A fogueira é um símbolo importante tanto nas culturas indígenas quanto nas tradições africanas, sendo associada às expressões espirituais desses povos. Para muitos povos originários, o fogo representa purificação, proteção e conexão com a ancestralidade.
Nas tradições de matriz africana, o fogo também simboliza transformação, resistência e ancestralidade, sendo associado a Xangô, orixá da justiça, do trovão e das chamas. Nesse contexto, as brasas representam força, equilíbrio e renovação.
Música, dança e festa

A música nordestina também guarda profundas influências africanas. No forró e no coco, por exemplo, a musicalidade, o ritmo e a percussão dialogam com tradições trazidas pelos africanos escravizados, cujos saberes ajudaram a formar a identidade sonora do Nordeste.
Embora tenha origem europeia, a quadrilha ganhou no Brasil características próprias ao incorporar elementos das culturas afro-brasileiras e indígenas. Os figurinos coloridos, a musicalidade nordestina, a criatividade popular e a força das manifestações locais transformaram a dança em um dos maiores símbolos das festas juninas.

O São João nasceu como uma celebração rural e, para chegar às cidades, contou com o protagonismo de mulheres negras. Quituteiras e tias de terreiro desempenharam papel fundamental ao organizar cozinhas comunitárias, preparar os pratos típicos que seriam compartilhados entre os brincantes e preservar práticas de devoção marcadas pelo sincretismo entre santos católicos e orixás.
Enquanto O Maior São João do Mundo caminha para o encerramento de mais uma edição, fica evidente que a força da festa vai muito além da programação. Em cada prato típico, no calor da fogueira, no som da sanfona, da zabumba e do triângulo e nos passos das quadrilhas, permanece vivo o legado das influências afro-indígenas. São elas que dão identidade ao São João nordestino e fazem dessa celebração uma das maiores expressões da cultura brasileira, reunindo, em cores, cheiros, sabores e ritmos, a diversidade que forma o nosso povo.
Ministério da Cultura, Brahma, Betano e Petrobrás apresentam “O Maior São João do Mundo”.
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Lei de incentivo à cultura, Lei Rouanet.
Realização: Arte Produções, Prefeitura Municipal de Campina Grande e Governo do Brasil
Texto: Gabryele Martins/Arte Produções
Foto: Gabryele Martins, Leydson Jackson e Micaela Nogueira/Arte Produções











